sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Para o Método

Para o método,

São duas coisas distintas: Querer estudar estes filósofos, e ter que estudar estes filósofos. É que se eu quero estudar estes filósofos, leio-os apenas de vez em quando, quando quero ter o gozo de interpretar o que eles quiseram dizer com as suas ideias, que vão contribuir com certeza para o meu pensamento. Outra coisa é ter que interpretar o que estes filósofos quiseram dizer com os seus tratados e críticas, cuja escrita e método de pensamento não seguem nenhuma linguagem universal (deixando sempre demasiado espaço a ambiguidades, nas quais se perde ou se ganha outro sentido, diferente ou igual do sentido que eles pretendiam) Eles próprios pecam por não recorrerem a nenhuma linguagem universal e de rigor para transmitirem o seu pensamento à humanidade, todos os sistemas filosóficos estão pejados ou de sofismas ou de inconsistências – inconsistências e sofismas mais facilmente evitáveis se escolhessem de bom senso, transmitir as suas ideias por uma linguagem clara e universalmente estabelecida.

A linguagem está em si pejada de inconsistências, assim o é por definição, mas sabemos já que a linguagem é a mediação necessária do pensamento; Se quero pensar com rigor, elaboro um método rigoroso para o meu próprio pensamento, esta é a condição de possibilidade do pensamento. Cada um é livre de não o fazer, claro, da mesma forma que todos «são livres» de não viver e de procurar o seu caminho, o seu méthodos. Eu escolho elaborar um método, é essa a condição de possibilidade, pelo que leio os corpus dos filósofos que não optaram por desenvolver uma linguagem universal como um psiquiatra psicanalista lê Dostoievski – Será que passarei dias e dias a tentar discernir arduamente as proposições lapidares do romance e identificá-las como «o verdadeiro pensamento do autor», e portanto, «a ideia latente por detrás de todo o romance»? Não! - Mas esta é a minha perspectiva, que depende do que eu procuro.

Estes filósofos exploram os conceitos antigos e criam novos conceitos, mas tudo isto sem método, é sempre tudo ambíguo, porque ulteriormente, «é impossível expressar a verdade»; uns chamam a isto a arte da filosofia, mas vejamos mesmo como se processa a arte na academia – Disseram-me que os meus quadros não são arte. Porquê? Porque não obedecem à escola, o meu pincel não tem qualquer educação formal. Mas serão os meus quadros arte? Não serão os gatafunhos pré-históricos: arte? Não. De bom grado que aceito a crítica. A linguagem é uma condição de possibilidade, é uma condição necessária.

Se o homem quer pensar para a humanidade, ele tem de desenvolver o seu pensamento na linguagem universal, e desenvolver essa linguagem com o desenvolvimento do seu pensamento, para que se possa exprimir quase que sem ambiguidade. (Já que o pensamento só se exprime por linguagem, então é possível que se exprima com ambiguidade 0) O artista é o que educou o pincel na academia, a obra de arte é não somente a que se promulgou na velha academia, mas a que marcou o novo manifesto, e com este se desenvolveu a linguagem.

Os meus quadros não serão arte enquanto não educar o meu pincel numa academia, fundando eu depois, a nova academia, porque a linguagem é tão somente meio, mas meio necessário. O que dizer então destes filósofos e do seu estatuto? Serão eles Filósofos? Em prol da humanidade, temos de desenvolver a linguagem universal – Este modo de fazer filosofia é mau método por princípio. Considero estes Homens e Pensadores como extraordinários autores literários. Os quadros de Van Gogh são formidáveis? Sim, mas ele passou pela escola, pela linguagem universal, ele mudou a escola. Os Fragmentos dos Pré-Socráticos são formidáveis, bem como toda a filosofia que li até hoje (minto)? Sim, mas o todo da filosofia não elaborou uma linguagem, não elaborou uma academia. Dirão que as mesmas questões morais e epistemológicas e ontológicas vão sendo tratadas por diferentes e elaboradas abordagens, mas essas abordagens são sempre ambíguas - cada filósofo é em si uma escola. Quando o filósofo morre, morre consigo a sua escola, porque não a colocou numa linguagem universal, e lá vão os hermeneutas reerguer a escola.

Este comentário é direccionado pelo meu prisma especifico, porque como muitos antes de mim, não consigo respirar sem saber o que é a realidade; não é que a ausência desta resposta me cole a garganta, não é que não consiga viver neste idílio alien, é que desde que comecei a perceber o que esta realidade é, desde que soube que existe a verdade, todo este mundo de beleza insustentável desertou pelo gargalo do petitio principii e em vez dele vi-me somente virado para a verdade: a verdade que tem de ser encontrada. Toda essa filosofia sem método e sem linguagem é o mais profundo romance - e um que não deve pertencer à arte, porque é preciso ser primeiro artista de academia para que do nosso talento próprio e original emerja a nova academia.

Se quero espalhar as minhas ideias, que o faça por uma qualquer linguagem tida como universal. Se as minhas ideias transcendem a linguagem de que me sirvo (porque transcendem sempre) então desenvolverei a linguagem comigo. É tautológico que para o meu caminho exista um método, a humanidade tem de pensar em conjunto.

Estas obras que tenho de ler contribuem para o meu pensamento, mas este, por sua vez, apenas contribui para alguma coisa, mesmo para mim mesmo, se eu o organizar metodicamente, e eu faço-o numa linguagem. E isto para todos os que pensam e esperam construir algo com o seu pensamento. Porque não haveremos todos de traduzir o nosso pensamento na mesma linguagem?

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