domingo, 15 de janeiro de 2012

αδάμας




Declaro-me, Senhores, um solitário rochedo de diamante num mar que poucos navegaram:

As vagas espumam de ira e fustigam - são chicotes loucos que sonham poder quebrar.
Os ventos aos silvos selvagens arranham como lâminas. Mas fogem em vergonha e desistem.
As intempéries trovejam-me pragas e eu grito-lhes de volta com o meu silêncio indiferente.
Das profundezas, criaturas abjectas tentam escalar-me e declarar-me seu domínio, mas escorregam e caem no abismo.

Inquebrável. É a única explicação. Pois cada vez que as tempestades valsam vãs, negras e festivas sobre mim, descubro com os últimos assobios humilhados do Bóreas vencido que ainda cá estou. E sempre estarei.

Leandro Alvor da Silveira

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Para o Método

Para o método,

São duas coisas distintas: Querer estudar estes filósofos, e ter que estudar estes filósofos. É que se eu quero estudar estes filósofos, leio-os apenas de vez em quando, quando quero ter o gozo de interpretar o que eles quiseram dizer com as suas ideias, que vão contribuir com certeza para o meu pensamento. Outra coisa é ter que interpretar o que estes filósofos quiseram dizer com os seus tratados e críticas, cuja escrita e método de pensamento não seguem nenhuma linguagem universal (deixando sempre demasiado espaço a ambiguidades, nas quais se perde ou se ganha outro sentido, diferente ou igual do sentido que eles pretendiam) Eles próprios pecam por não recorrerem a nenhuma linguagem universal e de rigor para transmitirem o seu pensamento à humanidade, todos os sistemas filosóficos estão pejados ou de sofismas ou de inconsistências – inconsistências e sofismas mais facilmente evitáveis se escolhessem de bom senso, transmitir as suas ideias por uma linguagem clara e universalmente estabelecida.

A linguagem está em si pejada de inconsistências, assim o é por definição, mas sabemos já que a linguagem é a mediação necessária do pensamento; Se quero pensar com rigor, elaboro um método rigoroso para o meu próprio pensamento, esta é a condição de possibilidade do pensamento. Cada um é livre de não o fazer, claro, da mesma forma que todos «são livres» de não viver e de procurar o seu caminho, o seu méthodos. Eu escolho elaborar um método, é essa a condição de possibilidade, pelo que leio os corpus dos filósofos que não optaram por desenvolver uma linguagem universal como um psiquiatra psicanalista lê Dostoievski – Será que passarei dias e dias a tentar discernir arduamente as proposições lapidares do romance e identificá-las como «o verdadeiro pensamento do autor», e portanto, «a ideia latente por detrás de todo o romance»? Não! - Mas esta é a minha perspectiva, que depende do que eu procuro.

Estes filósofos exploram os conceitos antigos e criam novos conceitos, mas tudo isto sem método, é sempre tudo ambíguo, porque ulteriormente, «é impossível expressar a verdade»; uns chamam a isto a arte da filosofia, mas vejamos mesmo como se processa a arte na academia – Disseram-me que os meus quadros não são arte. Porquê? Porque não obedecem à escola, o meu pincel não tem qualquer educação formal. Mas serão os meus quadros arte? Não serão os gatafunhos pré-históricos: arte? Não. De bom grado que aceito a crítica. A linguagem é uma condição de possibilidade, é uma condição necessária.

Se o homem quer pensar para a humanidade, ele tem de desenvolver o seu pensamento na linguagem universal, e desenvolver essa linguagem com o desenvolvimento do seu pensamento, para que se possa exprimir quase que sem ambiguidade. (Já que o pensamento só se exprime por linguagem, então é possível que se exprima com ambiguidade 0) O artista é o que educou o pincel na academia, a obra de arte é não somente a que se promulgou na velha academia, mas a que marcou o novo manifesto, e com este se desenvolveu a linguagem.

Os meus quadros não serão arte enquanto não educar o meu pincel numa academia, fundando eu depois, a nova academia, porque a linguagem é tão somente meio, mas meio necessário. O que dizer então destes filósofos e do seu estatuto? Serão eles Filósofos? Em prol da humanidade, temos de desenvolver a linguagem universal – Este modo de fazer filosofia é mau método por princípio. Considero estes Homens e Pensadores como extraordinários autores literários. Os quadros de Van Gogh são formidáveis? Sim, mas ele passou pela escola, pela linguagem universal, ele mudou a escola. Os Fragmentos dos Pré-Socráticos são formidáveis, bem como toda a filosofia que li até hoje (minto)? Sim, mas o todo da filosofia não elaborou uma linguagem, não elaborou uma academia. Dirão que as mesmas questões morais e epistemológicas e ontológicas vão sendo tratadas por diferentes e elaboradas abordagens, mas essas abordagens são sempre ambíguas - cada filósofo é em si uma escola. Quando o filósofo morre, morre consigo a sua escola, porque não a colocou numa linguagem universal, e lá vão os hermeneutas reerguer a escola.

Este comentário é direccionado pelo meu prisma especifico, porque como muitos antes de mim, não consigo respirar sem saber o que é a realidade; não é que a ausência desta resposta me cole a garganta, não é que não consiga viver neste idílio alien, é que desde que comecei a perceber o que esta realidade é, desde que soube que existe a verdade, todo este mundo de beleza insustentável desertou pelo gargalo do petitio principii e em vez dele vi-me somente virado para a verdade: a verdade que tem de ser encontrada. Toda essa filosofia sem método e sem linguagem é o mais profundo romance - e um que não deve pertencer à arte, porque é preciso ser primeiro artista de academia para que do nosso talento próprio e original emerja a nova academia.

Se quero espalhar as minhas ideias, que o faça por uma qualquer linguagem tida como universal. Se as minhas ideias transcendem a linguagem de que me sirvo (porque transcendem sempre) então desenvolverei a linguagem comigo. É tautológico que para o meu caminho exista um método, a humanidade tem de pensar em conjunto.

Estas obras que tenho de ler contribuem para o meu pensamento, mas este, por sua vez, apenas contribui para alguma coisa, mesmo para mim mesmo, se eu o organizar metodicamente, e eu faço-o numa linguagem. E isto para todos os que pensam e esperam construir algo com o seu pensamento. Porque não haveremos todos de traduzir o nosso pensamento na mesma linguagem?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Samson


Nicht lange bin ich durch diese Erde gereist. Ihre Gipfel, ihre Wunder und ihre Wonnen habe ich noch nicht genug gekannt.

Ich schwöre - und beabsichtige, dieses Versprechen mit allen Kräften meines Leibes und Herzen zu bewahren - nie und nimmermehr mein eigener, gekettelter Gefangener zu sein.

Die Ketten sind zerbrochen. Des Käfigs Mauer sind umgestürtzt. Freude erfüllt mich - denn ich bin mir jetzt bewusst, dass die Zeit manchmal nicht einfach vergeht. Sondern kehrt sie zurück. Es ist jetzt Zeit - es ist jetzt wieder Zeit - die Blühte meines Lebens zu erleben.

Die Ketten sind zerbrochen. Meine Zelle habe ich zerissen, als beständen ihre Wände aus Spinnennetzen. Ich bin frei. Jetzt kann ich wie die Zeit sein - unbegrenzt. Und daher kann ich mich endlich mit der Ewigkeit einschmelzen.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Onde?


Onde?

Onde estão as altivas naus?
O oiro, a prata e o marfim?
- Foram parar ao fundo do mar,
Às suas entranhas sem fim.

E onde estão os príncipes nobres
Que ao Mundo mostraram mil mundos?
- Num antro incerto do deserto
Têm túmulos de areia profundos.

... Porque nos ruge o Rei Oceano
Envolto em mantos de alva espuma?
- Chora a morte de heróis que a Sorte
Quis ver morrer em vão na bruma.

Leandro Alvor da Silveira, Julho de 2011

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O Grito


O Grito

No dia em que me fiz nascer
Despi a minha pele gasta;
Quebrei o hímen da Aurora casta,
Nasci antes de o Sol se erguer.

E lá, no topo frio do Mundo,
Olhei a Noite - olhos nos olhos,
Quando ela, em nebulosos folhos,
Despertava de um sono profundo:

"NOITE! Carrasco de inocentes!"
- Bradei-lhe, do Cume gelado -
"Demónio de fel, negro e alado,
Não mais te amaldiçoo entredentes!"

"Retira-te, acorda do teu sono,
Ventre maldito do Pesadelo
E da Insónia com presas de gelo!
Tirana! Abandona o teu Trono!"

"Porque acorrentas o amanhecer?
Porque, ó Muda, lhe tens inveja!
Queres proibir que o Mundo veja
Beleza, alegria ou prazer!"

"Amaldiçoada Déspota louca!
Vai-te, indigna, não mais regresses
Não mereces as nossas preces
Apenas minhas pragas roucas!"

- E, num rugido, desapareceu...
Levantou-se a Aurora dourada
E a Terra gemeu, espantada,
Quando saiu da masmorra o Céu.

Leandro Alvor da Silveira, Janeiro de 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Nasci.


Sou o filho e pai de mim mesmo. Sou Leandro Alvor da Silveira. Sou o poeta que hordas de ácaros de velhos pergaminhos acorrentaram no vazio, na inércia e na mediocridade.

Aurora! Regressaste, dulcíssima! Recolho-te, reconcilio-te e requebro-te o hímen antigo!

Sou filho e sobrinho de mim mesmo. Sou quem sou, por debaixo das camadas de pó e sob as cicatrizes barrocas de um sentido de humor divino retorcido, soprando dos céus clarins de sarcasmo. Mas não existe o Divino. Apenas eu. E o pó lava-se; as cicatrizes são distinções da batalha.

A arte da vida acabou. A vida não é uma arte. É apenas a vida. E a arte não é a vida, pois a vida é apenas um estado como outro qualquer. Quem conheceu o meu pai, sabe de que falo.

PAI! Beijo tua sepultura abandonada! Lavo as lágrimas, encomendo-me à Aurora que hoje vem e declaro que o Rei está morto - longa vida ao Rei.

Não me falem mais do Jardim de meu Pai. Decaiu, foi consumido por ervas daninhas e trepadeiras intrusas. Deixem-me reconstruir quem sou. E eu sou Leandro, não Rafael. Não das Neves, mas do Alvor. Sempre Silveira, porém.

Quem for meu irmão - irmão verdadeiro, daqueles que o sangue não escolhe - saberá partilhar a minha felicidade, o meu tremido entusiasmo infantil de me reunir ao meu antepassado e de simultaneamente me despedir dele para sempre. De recomeçar. De me ver quebrar a casca de madrepérola poeirenta e renascer livre.

Renasço. É um parto fácil. Já cá estive antes.