«Newton escrevia muito quando pensava», dizia o professor com as mãos na barriga. Os alunos escreviam nos cadernos:
Newton escrevia muito quando pensava, comentavam mais tarde em conversas sobre filosofia da ciência, «Newton escrevia muito quando pensava!», e assim assinalavam a sua presença na conversa filosófica, porque tinham dito algo. «A partir de 1679, começa a entregar-se ao grande problema da sua vida: a gravitação», e os alunos escreviam nos cadernos o que ouviam, mais tarde comentariam «Porque a partir de 79, começava já a entregar-se ao grande problema da sua vida», pausa retórica, «a gravitação.», e outros concordavam, «Sim, exactamente», entendiam-se todos muito bem.
«A terceira Lei de Kepler foi fundamental para a terceira lei de Newton», todos escreviam nos cadernos, ouviam todos o professor com muita atenção. «Agora peço que me perdoem mas vou fazer umas continhas», os alunos passavam as palmas das mãos pela testa e olhavam uns para os outros, o professor ria-se amigavelmente, «a matemática não é difícil», ria-se, ficava visivelmente entretido com a perspectiva de ir escrever umas contas no quadro para pessoas que não as saberiam ler; estes alunos viam a matemática como uma disciplina difícil e mitológica, se vissem um matemático olhariam-no com um misto de admiração e confusão e de suspeita e misticismo, fitariam especados o quadro, como lorpas que fartos de levar na tromba, se aproximavam da mão do amo quando este lhe pergunta se quer mais uma festinha.
O professor começava a escrever equações no quadro, «A força é proporcional à aceleração», ninguém percebia os símbolos que ele escrevia, «Talvez assim percebam», e escrevia
orça à frente do
F, e
celeração à frente do
a, e ouvia-se uma espécie de esclarecimento geral sob os alunos. «Professor, pode escrever os números maiores?», não existiam números, eram constantes, «Os símbolos?», ria-se, «Está bem», dizia com as narinas entupidas. Depois escrevia a terceira lei de Kepler, os filósofos mais velhos carregavam muito as sobrancelhas, espetando os nós dos dedos entre as narinas mergulhando o nariz na testa, fitavam as equações com grande compenetração, como quem olha para um conjunto de caracteres desconhecidos à espera de fazer com que os caracteres se sentissem desconfortáveis com os seus olhares perscrutadores e intrometidos, para que então se voltassem para trás, pedissem desculpa e revelassem o significado por detrás do estranho arranjo em que se dispunham.
Passavam as equações para o caderno, não se sabe com que propósito (alguns pretendiam abrir o caderno acidentalmente
na página das equações e ao pé de outro colega, «Ha», sorveria de sobressalto, «a terceira lei de Newton, equações», o outro olhá-lo-ia receoso, como se fosse o lanche de meio-da-manhã e tivesse apenas uma carcaça esmagada e outro tivesse bolo, bolachas e sumo. «Pois», atrevia-se trepidante, «isso foi...», tentava ver se não teria uma fatia de salame escondida nalgum dos bolsos, «1665? A grande peste negra, foi por aí?», percebia pela cara de invertebrado do outro balão que ele não sabia nada acerca
da peste negra e de Newton, o que era suficiente para que este concluísse que sim, que tinha sido em 1665. «Foi sim», dizia com bazófia, «Em 1665, a grande peste negra forçou as pessoas da cidade a refugiarem-se nas suas terras natal, foi então que Newton forjou o cálculo infiniti...», o trambolho engasgava-se, mas como pedante experiente que era, atropelava-se confiante, soltando por fim: «O cálculo infinitésiano.»
O outro olhava-a suspeito, não tinha nada a dizer, optou por concordar, assim teriam dito ambos algo que tivesse razão. O outro fez o mesmo, mais vale um pássaro na mão... Trocaram mais algumas ideias, acabando por se refastelar os dois numa conversa que rossava o tudo e o nada, enamorados das suas opiniões gerais mas «mordazes» acerca da sociedade, da econo... e era assim mesmo que eles terminavam as suas conversas, deixavam descer o tom e o volume das últimas palavras até estarem só a mexer os lábios e a língua, sem fazerem qualquer som, isto significava que a conversa tinha acabado. Depois despediam-se e iam-se embora.)
Dizíamos que os alunos passavam todos as equações para o caderno, sim, dizíamos que eles diziam todos que sim, porque o professor rematava sempre com «Está certo?», «É ou não é?», ninguém percebia nada, nem o professor percebia porque escrevia aquelas coisas no quadro, mas todos diziam que sim quando ouviam aquelas palavras obscuras e importantes, «pi», «quadrado», «binómio», «manipulações algébricas», quanto mais eram as palavras complicadas, mais o assunto se tornava complexo, apesar de não perceberem nada do assunto desde o princípio; mais tarde, os que não tinham ficado desmotivados com «as contas», virar-se-iam para os dados bibliográficos do filósofo natural, examinando-os com muita minúcia, para que também eles fossem homens de ciência, porque o filósofo é o tal homem de conhecimento completo, e há que saber falar de tudo, (mas apenas entre aqueles que não percebem dos assuntos de que eles querem saber falar).
O professor concluía a demonstração com «Está certo?», ia e vinha, «Dúvidas sobre isto?», ouviram-se uns soluços choramingas do fundo da sala. «Isto não sai para o exame», dizia, olhavam-no todos esbugalhados, se lhes furassem o crânio com uma agulha, verteria a massa amorfa que lhes inundava o espírito. Depois o professor recapitulava tudo o que tinha dito pelas mesmas palavras e em frases lacónicas de modo a que tudo se tornasse mais claro,
tá certo?