sábado, 24 de novembro de 2012

Moria




Apresento-me como não sendo ninguém. Ninguém. 
Questiono. Penso. Estou Louco. Louco és tu. Nós somos Loucos. 
                                   Sagrado, não sei. Sabes? 



HYDRO-MONUMENTS OF RAJASTHAN



Aqui eu sei. Petróleo não. Unicamente Água.

domingo, 11 de março de 2012

Useful prospects for Belief

The difference between a monkey and a man is that if you teach a monkey to write «não» as «ñ», he will learn it - you will explain to him «ñ» is faster do type than «não», so when the monkey talks about it to some other monkey, he does is it this way: «You can write ñ instead of não, because it is faster.» But let's suppose he was speaking to a man. Well the man would learn it and make immediate associations with words than endured «ã», words like «são», and so he would answer, «That's brilliant! You can also write «~s» then! That's great!» - But the monkey wouldn't realize what the man did, insofar as he would think of it, his thought worked on a different basis than men's did. Men reason logically, monkeys seem to relly on a «belief proccess way», they tend to «believe», they believe «in what they believe», so they really can't understand nor the reasons that lead them to believe what they do nor the reasons why they believe «belief» is itself a reliable and sufficient justification.

So the monkey would head tree, pondering very deeply, one would look at him and take him for an academic thinker, such confident poise and reflexion he fashionly exerted - he went on reading his monkey books, those he'd read a thousand times and kept dusted religiously, he read back the quotes on «philosopher monkey x»'s famous example «Não = ñ».

The monkey himself was working on this complex and important subject, «Não = ñ», so like any thoroughly concerned academic, his work consisted mainly on a colossal bibliography that presented any monkey reader with a data base sort of listing that filed any monkey that had wrote «não», «=», and «ñ» throughout the ages. Most of them didn't even intend on relating these three «atoms of God» together, but this monkey did, and that was his thesis, a list, built around the famous quote «Não=ñ». If this makes no sense to you and sounds rather preposterous, that is because you are not a monkey and you have a sense of humor. Monkeys can't read.

It would primarily seem that the monkey knew the reason for «Não=ñ», for he also said «ñ is faster than Não.» But the trick part is he held «ñ is faster than Não» not so much as a reason for «Não=ñ», but because he believed «ñ is faster than Não» to be the justification to «Não=ñ», just like he would believe any other reason whatsoever, had his «monkey philosopher x» in his monkey teatrice, presented him with the reason for «Não=ñ» to be: «He who asserts «Não=ñ» and presentes this sentence (that is being said right now) as a justification, is a dumb fuck.», he would've had presented this justification to his monkey friends, he would have held this justification to be true, he would even feel that calm relaxation that preceeds any good conclusion after a problem that took us weeks to solve.

So, presented with this new outrageous feat of philosophy, that «~s» may be to «São» as «ñ» is to «Ñão», he went on reading the thousand monkey books and found nothing. He questioned his monkey master, he too knew nothing of the sort because he too had never read any of it, which lead both of them to the conclusion that it was wrong. Usually, when a stupid idea is mistaken for a great idea, its beholders delve further into the nonsense that «the great idea» seems to corroborate, (men regard this phenomena, over condescendently perhaps, in that they're only monkeys, as the big science and contemporary academic and scientific development)

Was there really any point for the man talking back to that monkey? Well, the monkey gave the man a useful information (though the man was the only one who could proccess it) but it is rather pointless to try and teach a monkey, one can either cage him, stare at him whilst it being fed, feel all so superior to him, or one can make further use of the monkey, whilst allowing him to do what monkeys do: monkey around. One could gain the «argument of authority» that the «philosopher monkey x» enjoyed, and use it to provide the monkey with more informations, with which they'd monkey around - informations that would tell them «to respect oneself and the other monkeys», «to live in harmony with others and the environment» - This would make the monkeys behave properly, not that they fathomed the «meaning» of those famous and important passages on philosophical teatrices, but that they believed in them, and since that was suficcient for their beliefs and mottos, they would follow them.

How would they be useful? Do you know that monkeys are key elements on the trophic levels of any tropical ecosystem? Don't you find it useful to have tropical ecosystems? Then keep the monkeys. (Of course you can only keep them by learning to keep them) The difference between man and monkey seems to be the following then: Monkeys can believe that «Não=ñ», that «ñ is faster to type than Não» presenting no reasonable proccess in between (forgive us the pleonasm, it is just to emphasize the identity between belief and irrationality) monkeys stick fanaticaly to their beliefs and will die before subjecting their beliefs to candid criticism. Men can learn that «Não=ã», thus making immediate relations with other words that carry that same property, like «São» and the sort. Thoug that is the essential difference, men does so unaware of the proccess through which he does so, but that was until today.


Thank you.

sábado, 10 de março de 2012

Um dia no Ensino Superior da capital de

«Newton escrevia muito quando pensava», dizia o professor com as mãos na barriga. Os alunos escreviam nos cadernos: Newton escrevia muito quando pensava, comentavam mais tarde em conversas sobre filosofia da ciência, «Newton escrevia muito quando pensava!», e assim assinalavam a sua presença na conversa filosófica, porque tinham dito algo. «A partir de 1679, começa a entregar-se ao grande problema da sua vida: a gravitação», e os alunos escreviam nos cadernos o que ouviam, mais tarde comentariam «Porque a partir de 79, começava já a entregar-se ao grande problema da sua vida», pausa retórica, «a gravitação.», e outros concordavam, «Sim, exactamente», entendiam-se todos muito bem.

«A terceira Lei de Kepler foi fundamental para a terceira lei de Newton», todos escreviam nos cadernos, ouviam todos o professor com muita atenção. «Agora peço que me perdoem mas vou fazer umas continhas», os alunos passavam as palmas das mãos pela testa e olhavam uns para os outros, o professor ria-se amigavelmente, «a matemática não é difícil», ria-se, ficava visivelmente entretido com a perspectiva de ir escrever umas contas no quadro para pessoas que não as saberiam ler; estes alunos viam a matemática como uma disciplina difícil e mitológica, se vissem um matemático olhariam-no com um misto de admiração e confusão e de suspeita e misticismo, fitariam especados o quadro, como lorpas que fartos de levar na tromba, se aproximavam da mão do amo quando este lhe pergunta se quer mais uma festinha.

O professor começava a escrever equações no quadro, «A força é proporcional à aceleração», ninguém percebia os símbolos que ele escrevia, «Talvez assim percebam», e escrevia orça à frente do F, e celeração à frente do a, e ouvia-se uma espécie de esclarecimento geral sob os alunos. «Professor, pode escrever os números maiores?», não existiam números, eram constantes, «Os símbolos?», ria-se, «Está bem», dizia com as narinas entupidas. Depois escrevia a terceira lei de Kepler, os filósofos mais velhos carregavam muito as sobrancelhas, espetando os nós dos dedos entre as narinas mergulhando o nariz na testa, fitavam as equações com grande compenetração, como quem olha para um conjunto de caracteres desconhecidos à espera de fazer com que os caracteres se sentissem desconfortáveis com os seus olhares perscrutadores e intrometidos, para que então se voltassem para trás, pedissem desculpa e revelassem o significado por detrás do estranho arranjo em que se dispunham.

Passavam as equações para o caderno, não se sabe com que propósito (alguns pretendiam abrir o caderno acidentalmente na página das equações e ao pé de outro colega, «Ha», sorveria de sobressalto, «a terceira lei de Newton, equações», o outro olhá-lo-ia receoso, como se fosse o lanche de meio-da-manhã e tivesse apenas uma carcaça esmagada e outro tivesse bolo, bolachas e sumo. «Pois», atrevia-se trepidante, «isso foi...», tentava ver se não teria uma fatia de salame escondida nalgum dos bolsos, «1665? A grande peste negra, foi por aí?», percebia pela cara de invertebrado do outro balão que ele não sabia nada acerca da peste negra e de Newton, o que era suficiente para que este concluísse que sim, que tinha sido em 1665. «Foi sim», dizia com bazófia, «Em 1665, a grande peste negra forçou as pessoas da cidade a refugiarem-se nas suas terras natal, foi então que Newton forjou o cálculo infiniti...», o trambolho engasgava-se, mas como pedante experiente que era, atropelava-se confiante, soltando por fim: «O cálculo infinitésiano.»

O outro olhava-a suspeito, não tinha nada a dizer, optou por concordar, assim teriam dito ambos algo que tivesse razão. O outro fez o mesmo, mais vale um pássaro na mão... Trocaram mais algumas ideias, acabando por se refastelar os dois numa conversa que rossava o tudo e o nada, enamorados das suas opiniões gerais mas «mordazes» acerca da sociedade, da econo... e era assim mesmo que eles terminavam as suas conversas, deixavam descer o tom e o volume das últimas palavras até estarem só a mexer os lábios e a língua, sem fazerem qualquer som, isto significava que a conversa tinha acabado. Depois despediam-se e iam-se embora.)

Dizíamos que os alunos passavam todos as equações para o caderno, sim, dizíamos que eles diziam todos que sim, porque o professor rematava sempre com «Está certo?», «É ou não é?», ninguém percebia nada, nem o professor percebia porque escrevia aquelas coisas no quadro, mas todos diziam que sim quando ouviam aquelas palavras obscuras e importantes, «pi», «quadrado», «binómio», «manipulações algébricas», quanto mais eram as palavras complicadas, mais o assunto se tornava complexo, apesar de não perceberem nada do assunto desde o princípio; mais tarde, os que não tinham ficado desmotivados com «as contas», virar-se-iam para os dados bibliográficos do filósofo natural, examinando-os com muita minúcia, para que também eles fossem homens de ciência, porque o filósofo é o tal homem de conhecimento completo, e há que saber falar de tudo, (mas apenas entre aqueles que não percebem dos assuntos de que eles querem saber falar).

O professor concluía a demonstração com «Está certo?», ia e vinha, «Dúvidas sobre isto?», ouviram-se uns soluços choramingas do fundo da sala. «Isto não sai para o exame», dizia, olhavam-no todos esbugalhados, se lhes furassem o crânio com uma agulha, verteria a massa amorfa que lhes inundava o espírito. Depois o professor recapitulava tudo o que tinha dito pelas mesmas palavras e em frases lacónicas de modo a que tudo se tornasse mais claro, tá certo?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Escrita descritiva de dia 27.02.12 - Three men at the Science building's Cafeteria

Two men were sitting, talking, «He is a very powerful man, he owns a TV station, he has lots of money, lots of enemies, but still, lots of power», the chat went on about this man, and the two men were talking as giving serious emphasis to the fact that's how a man ought to be and live. Their posture exhaled importance, but of course, they were just two ph. D. Professors at the faculty of science's cafeteria, two printers that shit scientific papers as a journal prints news about whatever sells. By then, a third professor arrived, this professor wasn't from abroad like the first two of them, this man was more relaxed and the two others knew he wasn't one of the guys, he would never meet the standards of power to which they aspired though they acted already as powerful men did. They could but to greet him, for this third professor was the old and detached from the new ways yet respectful genre, he was from the old era, his golden era, from which his genius had sprung through his mature essays that of course stayed there, in the past.
Hello, they said. He greet them back and sit together. As they were both staring at him, undergoing the mystical effect of authority rather than respect, they felt the nausea, who was he, anyway, but an old man? They were the new brood.
As the old man took his cup of coffee to his lips, he choked on the first sip, he took the the cup down back again, carefully as he could not to make a spill, and tried to contain his coughing that grew sardonically, merciless, close to the sound a choking throat would, yet this man wouldn't choke, he was the deafening screaming of the chalk stick on the board that just won't break.
And so it went on and on, for five exact minutes. It left the two men in an awkward situation, because if they had any chance of bullying the old turd back to his time, such chance was gone, for they were undergoing a new feeling now, he was no longer a respectful old memory of a man that required shipping back, he was a pitiful man seemingly choking to a malfunctioning technique of sipping liquid through a small coffee cup.
It was yet more annoying that the old man didn't resolute between getting up and recovering his breath, or asking any the two of them for help, he just stood there, suffering with manners, making that awful choking noise for five wholesome minutes. He seemed rather focused on restraining his troubled breathing back to normal, and nobody could tell if he did it unbeknownst of the general alarm he was provoking. Nobody in the cafeteria could ignore it, it was the violent sound of choking that baffled all noise around, nor the coffee machine, nor the plates on the dish washing machine would dare interrupting the happening, that man would pass out sooner or later, for sure, though resistant he was, and everybody stared directly onto the two Professors who found their poising skills of arrogance and intimidation rather silly and ineffective. Why didn't they help their friend? Should anybody call an ambulance? One of them tried to approach the shoulder of the choking professor, he gently turned away the help, almost sustaining his last volume of air to utter «No, thank you». He started to wipe his nose, it seemed he did so intending to show he was well enough to start enterprising another feat, but of course all he did was coughing the tissue looking all the more weird and troubled than he was before. The two Professors couldn't continue with their conversation, it had been abruptly disrupted by this pathetic happening that seemed to just linger away, unaware that every happening must eventually como to an end, it must eventually consist in «something that happened», there's only so much suspense a man can take. But the man didn't want their help and wouldn't get up and leave, he was decided to get the situation under control, so the two of them had to wait till he was done with his coughing, or till his heart was done with him.
Obnoxious as they were, they didn't wait and found no other option but to get up and leave. He followed them, almost as if convinced his coughing was normal and that eventually everybody would get used to it and not even notice it, like a man that suddenly grows a third limb and simply accepts its new circumstance. He left the cafeteria next to the two men, he almost crushed against the glass door and almost trampled over his feet whilst walking outside, the two arrogant professors were very raged the last time they looked back before entering the main building and that was the end of it.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Escrita descritiva de dia 02.11.12 - J., C., F.

Era um tipo pequeno, estava visivelmente atraído por J., todos os homens que a viam se sentiam atraídos por ela, até F. Esse rapazito estava um pouco alcoolizado, mas tão importante quanto o álcool, era o sítio onde estava. Quando dizemos sítio, referimos-nos às pessoas com quem estava, e aos costumes associados ao convívio. Como muitos outros, juntava-se à noite com outros como ele pelas portas dos bares espalhados pelas ruas do bairro A., uma espécie de sistema circulatório fechado sobre si, com sarjetas de escoamento para o resto da cidade. Os noctívagos aglutinavam-se em massas escorridas pelas ruas apertadas, de vez em quando passavam camiões do lixo e táxis, coágulos gigantes que espremiam as pessoas contra as portas dos pequeno prédios de dois andares. As ruas fediam a urina, a haxixe, a cerveja, vinho, vodka, lixívia, de repente ouvia-se um cheiro a boa cozinha, haviam por ali muitos restaurantes, mas o resto tresandava a cabelos sujos e a sebo, uma gota de perfume aqui, uma vaga de tabaco a seguir, tresandava tudo aos velhos que pelo bairro se deixavam esmorecer, a mistura das coisas que compunham aquele costume é de tal ordem que por agora teremos que a abandonar, se não queremos perder aquele pequeno sujeito de quem falávamos no início deste parágrafo. Era um tipo desinibido, daqueles tímidos roedores que se aproximam da orla do terreno conhecido e, aventurando o nariz um palmo à frente, vendo que não levavam uma vergastada no focinho, devoravam que nem um alarve um ranço de queijo, regojizando-se com o pedaço mais de terra por onde poderiam passear as patas de futuro, era assim que esse tipo se dirigia a J., porque esta era amiga de C., que por sua vez era amiga desta espécie de rinorreia.

Vendo-se em contacto com uma rapariga tão bonita e acessível, pois eram estes os tratos de J., ela era afável e correcta para qualquer pessoa, o que fazia sentir-se bem vindo qualquer convidado indesejável, o pequeno saltimbanco de cera, aventurando-se a tentar a sua sorte com J., comportando-se como o bobo que era, não o soube fazer sem fazer pouco de si mesmo, e era por isto que começou e terminou a sua investida imbecil com arrogância e falta de educação, «É este o namorado dela?», perguntava ele a C., «Não», respondia ela, «Sim, sou», respondia F., que sem saber bem porquê o dizia, queria brincar com a sua amiga, eram assim os costumes, entrar nas brincadeiras sem se pensar a que é que se estava a brincar. O outro continuava a dirigir-se a C., como se J. não tivesse importância suficiente e que ambos pudessem falar sobre ela e na sua presença, sem a ela mesma se dirigirem. Esta era a sua estratégia para ganhar coragem e figura de parvo o suficiente para finalmente se dirigir a J., «Moras ao pé de mim não é? Pois», sentia os olhos dos seus amigos postos em si, isto transmitia-lhe mais confiança em continuar a fazer figura de parvo, «Dá-me o teu número então», ostentava o telemóvel como quem ostenta um troféu de caça e sorria como quem pescou uma truta de seis quilos.

Durante a sua curta investida, tinha de se mexer muito porque como quando quem não sabe o que está a dizer, tem de dizer o máximo de coisas possíveis, tantas ao ponto de alguém, de repente, encontrar um qualquer sentido no que o primeiro está a dizer. Ai ele irá concordar e dizer que era isso mesmo que estava a tentar dizer desde o início. É notável referir as pequenas manhas destes aldrabões de feira, ele sabia que F. não era namorado de J., mas perguntou-o como quem tenta demonstrar a sua ousadia em mesmo assim pedir o contacto pessoal de J. à frente do seu namorado, uma espécie de toca e foge na cauda do leão, que não era leão, era amigo de J., pelo que a sua ousadia apenas demonstrava que era mais um tipo mirrado, uma espécie de engodo entalado num passeio.

domingo, 15 de janeiro de 2012

αδάμας




Declaro-me, Senhores, um solitário rochedo de diamante num mar que poucos navegaram:

As vagas espumam de ira e fustigam - são chicotes loucos que sonham poder quebrar.
Os ventos aos silvos selvagens arranham como lâminas. Mas fogem em vergonha e desistem.
As intempéries trovejam-me pragas e eu grito-lhes de volta com o meu silêncio indiferente.
Das profundezas, criaturas abjectas tentam escalar-me e declarar-me seu domínio, mas escorregam e caem no abismo.

Inquebrável. É a única explicação. Pois cada vez que as tempestades valsam vãs, negras e festivas sobre mim, descubro com os últimos assobios humilhados do Bóreas vencido que ainda cá estou. E sempre estarei.

Leandro Alvor da Silveira

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Para o Método

Para o método,

São duas coisas distintas: Querer estudar estes filósofos, e ter que estudar estes filósofos. É que se eu quero estudar estes filósofos, leio-os apenas de vez em quando, quando quero ter o gozo de interpretar o que eles quiseram dizer com as suas ideias, que vão contribuir com certeza para o meu pensamento. Outra coisa é ter que interpretar o que estes filósofos quiseram dizer com os seus tratados e críticas, cuja escrita e método de pensamento não seguem nenhuma linguagem universal (deixando sempre demasiado espaço a ambiguidades, nas quais se perde ou se ganha outro sentido, diferente ou igual do sentido que eles pretendiam) Eles próprios pecam por não recorrerem a nenhuma linguagem universal e de rigor para transmitirem o seu pensamento à humanidade, todos os sistemas filosóficos estão pejados ou de sofismas ou de inconsistências – inconsistências e sofismas mais facilmente evitáveis se escolhessem de bom senso, transmitir as suas ideias por uma linguagem clara e universalmente estabelecida.

A linguagem está em si pejada de inconsistências, assim o é por definição, mas sabemos já que a linguagem é a mediação necessária do pensamento; Se quero pensar com rigor, elaboro um método rigoroso para o meu próprio pensamento, esta é a condição de possibilidade do pensamento. Cada um é livre de não o fazer, claro, da mesma forma que todos «são livres» de não viver e de procurar o seu caminho, o seu méthodos. Eu escolho elaborar um método, é essa a condição de possibilidade, pelo que leio os corpus dos filósofos que não optaram por desenvolver uma linguagem universal como um psiquiatra psicanalista lê Dostoievski – Será que passarei dias e dias a tentar discernir arduamente as proposições lapidares do romance e identificá-las como «o verdadeiro pensamento do autor», e portanto, «a ideia latente por detrás de todo o romance»? Não! - Mas esta é a minha perspectiva, que depende do que eu procuro.

Estes filósofos exploram os conceitos antigos e criam novos conceitos, mas tudo isto sem método, é sempre tudo ambíguo, porque ulteriormente, «é impossível expressar a verdade»; uns chamam a isto a arte da filosofia, mas vejamos mesmo como se processa a arte na academia – Disseram-me que os meus quadros não são arte. Porquê? Porque não obedecem à escola, o meu pincel não tem qualquer educação formal. Mas serão os meus quadros arte? Não serão os gatafunhos pré-históricos: arte? Não. De bom grado que aceito a crítica. A linguagem é uma condição de possibilidade, é uma condição necessária.

Se o homem quer pensar para a humanidade, ele tem de desenvolver o seu pensamento na linguagem universal, e desenvolver essa linguagem com o desenvolvimento do seu pensamento, para que se possa exprimir quase que sem ambiguidade. (Já que o pensamento só se exprime por linguagem, então é possível que se exprima com ambiguidade 0) O artista é o que educou o pincel na academia, a obra de arte é não somente a que se promulgou na velha academia, mas a que marcou o novo manifesto, e com este se desenvolveu a linguagem.

Os meus quadros não serão arte enquanto não educar o meu pincel numa academia, fundando eu depois, a nova academia, porque a linguagem é tão somente meio, mas meio necessário. O que dizer então destes filósofos e do seu estatuto? Serão eles Filósofos? Em prol da humanidade, temos de desenvolver a linguagem universal – Este modo de fazer filosofia é mau método por princípio. Considero estes Homens e Pensadores como extraordinários autores literários. Os quadros de Van Gogh são formidáveis? Sim, mas ele passou pela escola, pela linguagem universal, ele mudou a escola. Os Fragmentos dos Pré-Socráticos são formidáveis, bem como toda a filosofia que li até hoje (minto)? Sim, mas o todo da filosofia não elaborou uma linguagem, não elaborou uma academia. Dirão que as mesmas questões morais e epistemológicas e ontológicas vão sendo tratadas por diferentes e elaboradas abordagens, mas essas abordagens são sempre ambíguas - cada filósofo é em si uma escola. Quando o filósofo morre, morre consigo a sua escola, porque não a colocou numa linguagem universal, e lá vão os hermeneutas reerguer a escola.

Este comentário é direccionado pelo meu prisma especifico, porque como muitos antes de mim, não consigo respirar sem saber o que é a realidade; não é que a ausência desta resposta me cole a garganta, não é que não consiga viver neste idílio alien, é que desde que comecei a perceber o que esta realidade é, desde que soube que existe a verdade, todo este mundo de beleza insustentável desertou pelo gargalo do petitio principii e em vez dele vi-me somente virado para a verdade: a verdade que tem de ser encontrada. Toda essa filosofia sem método e sem linguagem é o mais profundo romance - e um que não deve pertencer à arte, porque é preciso ser primeiro artista de academia para que do nosso talento próprio e original emerja a nova academia.

Se quero espalhar as minhas ideias, que o faça por uma qualquer linguagem tida como universal. Se as minhas ideias transcendem a linguagem de que me sirvo (porque transcendem sempre) então desenvolverei a linguagem comigo. É tautológico que para o meu caminho exista um método, a humanidade tem de pensar em conjunto.

Estas obras que tenho de ler contribuem para o meu pensamento, mas este, por sua vez, apenas contribui para alguma coisa, mesmo para mim mesmo, se eu o organizar metodicamente, e eu faço-o numa linguagem. E isto para todos os que pensam e esperam construir algo com o seu pensamento. Porque não haveremos todos de traduzir o nosso pensamento na mesma linguagem?