terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O Grito


O Grito

No dia em que me fiz nascer
Despi a minha pele gasta;
Quebrei o hímen da Aurora casta,
Nasci antes de o Sol se erguer.

E lá, no topo frio do Mundo,
Olhei a Noite - olhos nos olhos,
Quando ela, em nebulosos folhos,
Despertava de um sono profundo:

"NOITE! Carrasco de inocentes!"
- Bradei-lhe, do Cume gelado -
"Demónio de fel, negro e alado,
Não mais te amaldiçoo entredentes!"

"Retira-te, acorda do teu sono,
Ventre maldito do Pesadelo
E da Insónia com presas de gelo!
Tirana! Abandona o teu Trono!"

"Porque acorrentas o amanhecer?
Porque, ó Muda, lhe tens inveja!
Queres proibir que o Mundo veja
Beleza, alegria ou prazer!"

"Amaldiçoada Déspota louca!
Vai-te, indigna, não mais regresses
Não mereces as nossas preces
Apenas minhas pragas roucas!"

- E, num rugido, desapareceu...
Levantou-se a Aurora dourada
E a Terra gemeu, espantada,
Quando saiu da masmorra o Céu.

Leandro Alvor da Silveira, Janeiro de 2012

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