sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Escrita descritiva de dia 02.11.12 - J., C., F.

Era um tipo pequeno, estava visivelmente atraído por J., todos os homens que a viam se sentiam atraídos por ela, até F. Esse rapazito estava um pouco alcoolizado, mas tão importante quanto o álcool, era o sítio onde estava. Quando dizemos sítio, referimos-nos às pessoas com quem estava, e aos costumes associados ao convívio. Como muitos outros, juntava-se à noite com outros como ele pelas portas dos bares espalhados pelas ruas do bairro A., uma espécie de sistema circulatório fechado sobre si, com sarjetas de escoamento para o resto da cidade. Os noctívagos aglutinavam-se em massas escorridas pelas ruas apertadas, de vez em quando passavam camiões do lixo e táxis, coágulos gigantes que espremiam as pessoas contra as portas dos pequeno prédios de dois andares. As ruas fediam a urina, a haxixe, a cerveja, vinho, vodka, lixívia, de repente ouvia-se um cheiro a boa cozinha, haviam por ali muitos restaurantes, mas o resto tresandava a cabelos sujos e a sebo, uma gota de perfume aqui, uma vaga de tabaco a seguir, tresandava tudo aos velhos que pelo bairro se deixavam esmorecer, a mistura das coisas que compunham aquele costume é de tal ordem que por agora teremos que a abandonar, se não queremos perder aquele pequeno sujeito de quem falávamos no início deste parágrafo. Era um tipo desinibido, daqueles tímidos roedores que se aproximam da orla do terreno conhecido e, aventurando o nariz um palmo à frente, vendo que não levavam uma vergastada no focinho, devoravam que nem um alarve um ranço de queijo, regojizando-se com o pedaço mais de terra por onde poderiam passear as patas de futuro, era assim que esse tipo se dirigia a J., porque esta era amiga de C., que por sua vez era amiga desta espécie de rinorreia.

Vendo-se em contacto com uma rapariga tão bonita e acessível, pois eram estes os tratos de J., ela era afável e correcta para qualquer pessoa, o que fazia sentir-se bem vindo qualquer convidado indesejável, o pequeno saltimbanco de cera, aventurando-se a tentar a sua sorte com J., comportando-se como o bobo que era, não o soube fazer sem fazer pouco de si mesmo, e era por isto que começou e terminou a sua investida imbecil com arrogância e falta de educação, «É este o namorado dela?», perguntava ele a C., «Não», respondia ela, «Sim, sou», respondia F., que sem saber bem porquê o dizia, queria brincar com a sua amiga, eram assim os costumes, entrar nas brincadeiras sem se pensar a que é que se estava a brincar. O outro continuava a dirigir-se a C., como se J. não tivesse importância suficiente e que ambos pudessem falar sobre ela e na sua presença, sem a ela mesma se dirigirem. Esta era a sua estratégia para ganhar coragem e figura de parvo o suficiente para finalmente se dirigir a J., «Moras ao pé de mim não é? Pois», sentia os olhos dos seus amigos postos em si, isto transmitia-lhe mais confiança em continuar a fazer figura de parvo, «Dá-me o teu número então», ostentava o telemóvel como quem ostenta um troféu de caça e sorria como quem pescou uma truta de seis quilos.

Durante a sua curta investida, tinha de se mexer muito porque como quando quem não sabe o que está a dizer, tem de dizer o máximo de coisas possíveis, tantas ao ponto de alguém, de repente, encontrar um qualquer sentido no que o primeiro está a dizer. Ai ele irá concordar e dizer que era isso mesmo que estava a tentar dizer desde o início. É notável referir as pequenas manhas destes aldrabões de feira, ele sabia que F. não era namorado de J., mas perguntou-o como quem tenta demonstrar a sua ousadia em mesmo assim pedir o contacto pessoal de J. à frente do seu namorado, uma espécie de toca e foge na cauda do leão, que não era leão, era amigo de J., pelo que a sua ousadia apenas demonstrava que era mais um tipo mirrado, uma espécie de engodo entalado num passeio.

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